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A ética do dom e a regra do amor, em Karol Wojtyla

“Amarás ao Senhor teu Deus de todo coração, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior que estes não existe” (Mc. 12, 30-31).

O pensamento filosófico e teológico de Karol Wojtyla[1], assevera que a moralidade é parte indissociável de cada pessoa e essa moral não deve ser entendida como um moralismo pessoal, mas como objetivo de querer e atuar pelo bem, essa ética faz parte da autorrealização de cada sujeito. A vontade livre é sempre posta no campo das decisões da pessoa em realizar o bem ou o mal, pois sendo o senhor, o dono de si, a pessoa é capaz de dirigir sua vontade na liberdade de atuar em direção de coisas boas ou ruins e, seja positivamente ou negativamente, ser capaz de arcar com seus atos eleitos por ela mesma, posto que: “O objetivo da vontade é o bem. Existe uma variedade de bens que podemos querer. O ponto é querer o que é verdadeiro. Tal ato de vontade nos faz bons seres humanos. Ser moralmente bom, não somente devemos querer algo bom, como também devemos quere-lo de maneira boa. Se o queremos mal, seremos moralmente maus. A moral, portanto, pressupõe o conhecimento da verdade sobre o bem, porém o realiza mediante a vontade, por escolha, por decisão. Desta maneira, nossa vontade não é apenas boa ou mal, mas que também toda a nossa pessoa passa a ser boa ou ruim”[2].

O amor em Karol Wojtyla é parte fundamental da pessoa e “[…] em todo ato de amor há uma relação causal eficiente da pessoa a respeito dos valores que ela realiza mediante o amor, seja por si mesma seja em relação a outro”[3] ao expressar que “toda convivência humana deveria se basear no amor” não se pode negar ou esquivar que quando se diz “toda convivência humana” se está englobando a pessoa como um todo, em seus princípios éticos, políticos, de ação, etc. O amor, “na visão de Santo Tomás, é, por um lado, uma espécie de necessidade da natureza e, por outro lado, uma demanda e até mesmo um ideal de moralidade. O amor traz a união das pessoas e sua convivência harmoniosa”[4].

Assevera-se, pois, que “toda a coexistência humana deve basear-se no amor. O conselho evangélico para amar o seu próximo é um princípio profundamente personalista”[5]. Sim, “o princípio ético segundo o qual devemos fazer aos outros o que nós queremos que nos façam, é também conhecida na tradição cristã como regra de amor ao próximo”[6], esta regra nos leva da autorrealização a uma verdadeira auto-doção que é algo basilar no que se refere ao existir e atuar da pessoa conjuntamente com o próximo, com a pessoa do outro. O amor é a condição necessária para a formação e a participação da, e, na comunidade, quando o homem se perde na direção contrária do amor, este está envolto na alienação. Portanto, toda esta reflexão sobre o amor associado ao próximo e a participação como tal na vida do outro, explicita o sentido ético e político da convivência participativa e da afirmação do amor frente ao outro, pois “o amor da pessoa pela pessoa se revela, em sua veracidade, pela atitude de quem afirma amar. Seu amor deverá ter como fim a outra pessoa, o próximo, quanto a seu crescimento integral referente aos bens corpóreos, psíquicos e espirituais”[7].

Assim, Karol Wojtyla afirma que para todas as problemáticas presentes só se resta uma solução: – “A solução afirmativa é amar. Só a pessoa é capaz de partilhar amor”[8], pois partilhar é participar da sociedade em que o próximo não me é objeto ou algo a ser coisificado, mas um valor e um fim em si que exige “a prática de um bem que me impõem a renúncia de algum prazer”[9]. Amar é querer o bem da pessoa, do próximo, enquanto pessoa. Amar é a melhor síntese entre o querer, o valor e o dever.

Por Mathaus Sampaio Sales
(Graduando em Filosofia e Seminarista da Diocese de Teixeira de Freitas / Caravelas – BA)

[1] Karol Wojtyla (1905-2005) “foi ator, poeta, jornalista, capelão, filósofo, professor e arcebispo numa Polônia sucessivamente abalada pelo nazismo e o comunismo. Esse passado rico e contrastado, que exigiu do autor vários anos de pesquisa”. (Cf. LECOMTE, Bernard. João Paulo II: biografia. Rio de Janeiro: Record, 2005). Eleito Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana em 1978, assumindo o nome de João Paulo II e canonizado em 2014.
[2] WOJTYLA, Karol. El personalismo tomista. Lublin: Universidad Católica de Lublin, 1961. p. 7 (tradução nossa).
[3] SALLES, Sérgio de S.; SILVEIRA, Carlos Frederico G. C. da. Karol Wojtyla e os níveis de sentido da regra de ouro. Veritas, Rio de Janeiro, 2014, p. 214.
[4] WOJTYLA, Karol. El personalismo tomista. Lublin: Universidad Católica de Lublin, 1961. p. 8 (tradução nossa).
[5] Ibid. Loc. Cit.
[6] SALLES, Sérgio de S.; SILVEIRA, Carlos Frederico G. C. da. Karol Wojtyla e os níveis de sentido da regra de ouro. Veritas, Rio de Janeiro, 2014. p. 194.
[7] Ibid., p. 132.
[8] Ibid., p. 133.
[9] Ibid., p. 132.


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