Quarta-feira de Cinzas: Porta de Entrada para o Caminho Quaresmal

A Igreja, Mãe e Mestra, em sua sabedoria pedagógica, conduz os fiéis ao longo do ano litúrgico por um verdadeiro itinerário de fé. A cada ano, revivemos a história da salvação para recordar de onde viemos e para onde somos chamados a voltar. Dentro desse caminho, a Quaresma ocupa um lugar central: é o tempo que nos prepara para o ápice da fé cristã, a Ressurreição do Senhor.
Esse tempo forte começa com a Quarta-feira de Cinzas, celebração que inaugura um período de quarenta dias marcado de modo especial pelo jejum, pela oração e pela esmola. Iniciar bem a Quaresma é fundamental, pois ela nos convida a uma preparação interior mais profunda para acompanhar a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
O que é a Quarta-feira de Cinzas?
A Quarta-feira de Cinzas marca oficialmente o início da Quaresma. É um dia que recorda a fragilidade da condição humana e a necessidade da penitência como caminho de conversão. Por isso, é também um dia de jejum e de recolhimento, que indica o começo de um período inteiro de práticas penitenciais mais intensas.
A liturgia desse dia favorece a oração e a meditação, ajudando os fiéis a refletirem sobre a brevidade da vida e sobre a urgência da conversão. A Igreja nos convida a iniciar um novo caminho quaresmal que “se estende por quarenta dias e nos conduz à alegria da Páscoa do Senhor, à vitória da Vida sobre a morte”.
O significado das cinzas
No primeiro dia da Quaresma, os fiéis recebem sobre a cabeça as cinzas benzidas. Esse gesto é um sinal visível que recorda a nossa condição de criaturas e nos convida à penitência e ao compromisso concreto de conversão, para seguir cada vez mais o Senhor.
As cinzas possuem um profundo significado bíblico. Nas Sagradas Escrituras, elas simbolizam a brevidade da vida — “somos pó e ao pó voltaremos” —, mas também expressam arrependimento, penitência e desejo sincero de conversão. Assim, o sinal das cinzas não é um simples rito exterior, mas um chamado interior à transformação do coração.
Origem histórica da celebração
A origem da Quarta-feira de Cinzas remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Já no século II, os cristãos se preparavam para a Páscoa com dias de jejum e penitência. No século IV, a Igreja estabeleceu um período de quarenta dias de preparação, inspirado nos quarenta dias de jejum de Jesus no deserto.
Inicialmente, a Quaresma começava seis semanas antes da Páscoa. No entanto, no século VII, a contagem foi ajustada para ter início na quarta-feira, permitindo simbolicamente os quarenta dias de penitência, excluindo os domingos.
A imposição das cinzas surgiu, a princípio, como um gesto penitencial reservado àqueles que realizavam penitência pública por pecados graves. Com o tempo, essa prática foi sendo estendida a todos os fiéis e incorporada de modo definitivo à celebração da Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas.
Segundo São João Paulo II, essa liturgia pode ser considerada, de certo modo, uma “liturgia de morte”, pois remete à Sexta-Feira Santa. É um chamado a morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna em Cristo.
A liturgia da Palavra e o chamado à conversão
A liturgia da Quarta-feira de Cinzas é profundamente marcada pelo apelo à conversão. A primeira leitura, do profeta Joel, proclama: “Rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia”.
O Salmo 50 conduz os fiéis a uma súplica penitencial, enquanto a segunda leitura recorda que “é agora o momento favorável, é agora o dia da salvação”. Toda a celebração está permeada por esse espírito: desde o ato penitencial no início da Missa até as orações após a Comunhão, nas quais pedimos que o jejum e a penitência nos sirvam como verdadeiro remédio espiritual.
O rito da imposição das cinzas
O rito das cinzas acontece durante a Missa, após a homilia. O sacerdote abençoa as cinzas e as impõe sobre a testa dos fiéis, enquanto proclama uma das fórmulas previstas pelo rito.
A primeira fórmula — “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” — conduz à reflexão sobre a caducidade da vida e sobre a vaidade dos projetos humanos quando não estão alinhados à vontade de Deus. A segunda — “Convertei-vos e crede no Evangelho” — ressalta as condições essenciais para caminhar com Cristo: uma transformação interior concreta e uma adesão sincera à sua Palavra.
Quem pode receber as cinzas?
As cinzas são um sacramental. Por isso, não estão restritas apenas àqueles que se encontram em estado de graça. Conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica, os sacramentais não conferem a graça do Espírito Santo como os sacramentos, mas preparam os fiéis para recebê-la e dispõem o coração a cooperar com ela.
Assim, qualquer pessoa pode receber as cinzas. Elas são um convite à penitência e à vivência do tempo quaresmal, cumprindo sua função de preparar o coração para a ação da graça divina.
De onde vêm as cinzas ?
Tradicionalmente, as cinzas utilizadas na Quarta-feira de Cinzas provêm dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. Esses ramos, após serem recolhidos e secos, são queimados e transformados em cinzas finas.
Durante a Missa da Quarta-feira de Cinzas, essas cinzas são abençoadas, tornando-se um sinal sagrado que une dois momentos fundamentais do ano litúrgico: a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e o início do caminho penitencial que conduz à Páscoa.
Um tempo favorável de graça
A Quarta-feira de Cinzas abre um tempo singular de graça. A conversão do coração é sua dimensão fundamental. A Igreja nos recorda que esse caminho exige oração perseverante, adesão humilde à vontade de Deus e práticas penitenciais concretas, como o jejum, a abstinência, a mortificação e a caridade expressa na esmola e na solidariedade com os irmãos.
Seguindo esse caminho tradicional, somos convidados a iniciar a Quaresma com propósitos verdadeiros de penitência e ascese, para que, mortos para o pecado, vivamos uma vida nova e ressuscitemos com Cristo para a vida eterna. Que esse tempo seja, de fato, um treinamento espiritual que nos conduza à alegria plena da Páscoa do Senhor.
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CIC – Catecismo da Igreja Católica



